“O Outono” de Joana Vitória Martins


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O OUTONO
Do Latim “ autumnus”, que significa “ estação que precede o Inverno, colheita, decadência”. Confesso que esta é uma das minhas estações de transição preferidas. É com uma extrema generosidade que o Outono nos brinda com as frutas a cair e a convidar-nos para a época das colheitas e ficarmos no quentinho da cozinha, a fazer compotas, conservas, licores, fermentados, entre tantos outros, qual cozinha da avó. As ruas são brindadas com os castanhos, os dourados, os variados tons de verde e vermelho, desde o ocre, ao mostarda, ao rosa velho. Nas folhas podemos ver a transformação da vida para a sua morte. A partir do Equinócio as horas de luz são iguais à noite, e com o aproximar do Outono, as noites vão se tornando consideravelmente maiores. Este é um convite à nossa sombra, aos padrões que se repetem na nossa herança genética, no nosso dia a dia , e que na dinâmica do Verão e do Sol, ignoramos. O Outono representa esta descida à nossa sombra, ao nosso mundo interior, um convite ao nosso Útero, ao submundo da nossa Grande Mãe Terra, onde ela mesma entra em repouso, em estado de hibernação, guardando todas as energias para enfrentar o rigoroso Inverno para depois germinar com toda a sua força, beleza e generosidade.
É ainda no Outono que acontecem duas importantes celebrações pagãs que no fundo são a mesma – O Samhain – mais conhecido pelo Dia das Bruxas e o Dia dos Mortos – mais conhecido pelo Dia dos Finados ou Dia de Todos os Santos.
SAMHAIN
Samhain, em irlandês, gaélico e escocês, significa “ sem luz” ou “ fim do verão” , representa o fim e o começo do novo ano Celta. Na Irlanda antiga, celebrava-se este dia com um grande fogo sagrado, supostamente para queimar durante todo o inverno, para celebrar este mergulho total na escuridão da alma. Esta celebração representa a morte dos nossos “ eus passados” e um convite ao renascer de novos “ eus presentes e futuros”. Nas famílias celebra-se homenageando os entes queridos passados, cozinhado alimentos da sua preferência e contando histórias passadas aos seus descendentes. É uma forma de festejar o passado e o futuro. À noite, acendem-se velas nas janelas da frente da casa, em sinal de respeito e agradecimento aos antepassados de sangue, terra e tradições. Seria lindo que conseguíssemos transpor esta sabedoria para os dias de hoje.
Os Celtas praticavam rituais de purificação queimando simbolicamente nas fogueiras e caldeirões todas as suas frustrações e ansiedades do ano anterior. Este ritual é sinónimo de introspecção e renovação. A romã é um dos frutos mais simbólicos nesta festividade e simboliza a fertilidade, em que o branco representa o sémen masculino e os bagos os óvulos femininos.
O mesmo significado é dado ao dia dos mortos. Onde o tema da morte é celebrado com vida, e muita abundância, para que os mortos sigam em paz. Vejamos o caso da celebração que fazem no México. Em Portugal, em algumas zonas do interior é ainda uma festa muito celebrada e felizmente ainda na zona de Trás os Montes, de forma pagã. Nos Estados Unidos este dia ficou marcado como o Halloween, que significa “ all hallow even “ , e as partidas ou “ tricks or treats”, foram inspiradas numa história / lenda da Irlanda Antiga , conhecido por alguns pela “ Lenda do João Lanterna” .
Este ano temos um acontecimento muito forte, é que o Samhain no dia 31 de Outubro vem um dia depois da Lua Nova em Escorpião, que também é o momento de fecharmos ciclos passados, e darmos início a algo novo e largarmos velhos hábitos. E Escorpião simboliza a transformação, a morte e o renascimento.
Os símbolos para o Samhian são a abóbora, as nozes, as castanhas, avelãs, romãs, as cores negra e laranja. Os incensos a utilizar são mirra, sálvia, carvalho ou cedro. Outro tipo de alimentos são a cidra, o vinho tinto, o chá preto, vários tipos de pães e frutas.
Posto isto , convido a todos, nesta fase do ano, a desacelerarem o passo, a respeitarem esta descida ao vosso submundo, a olharem de frente e amarem a vossa sombra, a conhecerem-se a vocês mesmos, e a mudarem a alimentação, pois é também nela que vamos encontrar os alicerces para este auto conhecimento . Tomem todos estes momentos, como bençãos, dádivas da nossa Grande Mãe – Gaia, Aquela Que Tudo Sabe. E já Sócrates dizia e muito sábio “ Conhece-te a Ti Mesmo “
COMO FAZER A PASSAGEM DA ALIMENTAÇÃO DE VERÃO PARA INVERNO ?
É na passagem do Verão para o Outono, que o nosso corpo está mais susceptível a fragilidades, então este é o momento onde temos suavemente de mudar os alimentos, de forma a enfrentarmos as mudanças de temperatura repentinas. Logo, o ponto mais forte a estarmos atentos, e reforçarmos é o nosso sistema imunitário, de forma a não ficarmos demasiado frágeis , sensíveis e conseguirmos combater as doenças de Inverno. Não tem mal se apanhamos uma constipaçãozita, é sinal de limpeza, mas não é suposto, estarmos doentes todos os Outonos e Invernos. E isto é também consequência de uma adequada alimentação e qualidade de vida durante o verão passado. Nesta estação temos de apostar nos antioxidantes, na Vitamina C porta de entrada para os elemenstos essenciais ao bom funcionamento do nosso organismo, a Vitamina D – aproveitarmos ao máximo as poucas horas de exposição so sol, pois esta é uma vitamina que o nosso corpo não produz, apenas absorve através da pele , o Ferro, Zinco e Vitamina E.
No Outono usemos e abusemos das abóboras de inverno, castanhas, amendoas, nozes, alho francês, couves de bruxelas, espinafres, chicória, cebolas, nabos, beterraba, rábanos, acelgas, brócuos, couve flor, todo o tipo de couves, as de bruxelas, funcho, grelos, nabiças, aipo, maçãs – a nossa fantástica Bravo Esmolfe considerada a mação mais medicinal de todas as que temos , o medronho, os marmelos, diospiro, ameixa, kiwi, amoras silvestres, romãs. Os cereais mais aconselhados são a aveia, arroz, trigo espelta, trigo kamut, trigo sarraceno ( não é um cereal, mas sim uma erva comestível ) , a quinoa , o sorgo e o milho e milho miudo ( millet ) – até meados de Outono para estes dois últimos. Este é ainda o tempo para as raízes e os tubérculos estarem presentes de forma regular nas refeições e podemos usar as especiarias com alguma maior regularidade que nas outras estações. As aromáticas por excelência são a sálvia, o tomilho, a salsa, o alecrim e o rosmaninho.
No entanto, quero com isto adiantar que cada corpo é um corpo e não podemos seguir todos a mesma dieta. A saúde perfeita existe, quando nos conhecemos a nós próprios , tal como Sócrates dizia : “ conhece-te a ti mesmo”. Considero esta uma das sugestões mais inteligentes ditas até hoje. Este trabalho, é um trabalho de uma vida e uma “ saúde perfeita” não passa apenas por uma boa alimentação, senão a conjugação de outros factores como : o exercício fisico, a respiração, os pensamentos, e o ambiente à nossa volta. Somos todos responsáveis pela saúde que temos, e sejamos conscientes das nossas escolhas . A vitória diária é conseguirmos o equílibrio do CORPO – MENTE – ESPÍRITO . Deixo – vos com uma receita invernal para aquecer as vossas tardes de Outono.

VINHO QUENTE
Escusado será dizer que esta é uma bebida de eleição para o tempo quente…Sabemos por tradições antigas que esta bebida também funciona como um “ anitbiótico natural” . Quem não se lembra também do ponche quentinho ou do brandy com mel ? Aconselho a que seja tomada, naqueles dias em que chegamos da rua com mais frio e humidade, ou simplesmente numa tarde de Outono relaxante no sofá, ou para receber os nossos amigos num jantar especial. Aqui segue a receita que gosto mais.
Na véspera deitar num tacho grande 1 lt de vinho tinto ( convém que seja com alguma qualidade , porque senão vai dar dores de cabeça) , 1 chávena pequena de acúcar demerara ou rapadura ou açucar de coco, com maçãs cortadas aos quartos sem sementes, casca de 1 laranja bio, um pau de canela grande, 1 ou 2 flores de anis estrelado, uns 5 a 10 cravinhos, 2 rodelas grandes de gengibre e erva doce ou sementes de funcho a gosto. Provamos para ver se está como gostamos, pelo menos, se está suficientemente doce. Deixamos a marinar durante a noite ou até 24 horas.
No dia seguinte, aquecemos em lume brando até começar ligeiramente a ferver. Nesse momento baixar o lume e deixar aí por uns 45 minutos, sempre a observar sem deixar que ferva! Quanto mais tempo estiver em lume muito baixo, sem que ferva, mais apurado ficará! Sirvam e bebam quente com amêndoas tostadas e passas dentro do copo. Fica uma delícia! Para quem gosta, na noite em que preparam podem acrescentar uma dose de aguardente de medronho.
Boas Tardes de Outono.

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