“Nutrir para Renascer da Luz” de Joana Vitória Martins


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Nutrir para Renascer da Luz

Aproxima-se o fim do Outono e damos início a outro ciclo maravilhoso : o Inverno. Aquela fase do ano em que de forma geral quase todos fugimos, porque sabemos que fará mais frio, e ainda faltam uns bons meses para chegar a Primavera, porque ansiamos pela luz e pelo calor. Nesta fase mais densa e sombria do Outono – Inverno, as pessoas tendem a ficar mais para baixo” , mais introspectivas, quase em modo hibernação. E não se assustem, porque isso é simplesmente viver em consonância com os ritmos da Natureza. A escuridão existe, a sombra existe e é somente nela onde podemos reflectir sobre a forma como agimos e o que queremos libertar e frutificar nos próximos ciclos. Daí o potencial do nascimento da luz com este Solstício de Inverno que se aproxima. Por isso, é que mudamos de alimentação em todas as estações, tal como a Natureza muda na generosidade dos seus alimentos. Esta dinâmica para muitos pode ser complexa, para outros pode ser uma agradável e excitante viagem. Não podemos ver o mundo da alimentação como um bem adquirido de forma estanque para o ano inteiro, e nem podemos ver no resgate da nossa sabedoria culinaria ancestral – ou seja – o retorno à rotina de comermos apenas o que a terra nos dá em cada estação, como um peso, uma carga de trabalhos que irá afectar o nosso dia – a dia ou planos. A verdade é que afecta. Só que afectará muito mais, senão nos alimentarmo de forma coincidente com a energia cósmica, e daí resultam as doenças, os desequílibrios, as inquietudes, as intolerâncias, as alergias, e entre outras patologias….

No Inverno, a melancolia tende a aumentar, sabendo que teremos mais dias de frio pela frente e essa melancolia, tranforma-se em ansiedade pelo stress emocional gerado nesta época de consumismo associada ao Natal e à passagem do ano. No entanto, essa melancolia pode ser uma melancolia criativa, traduzindo-se em momentos em que nos apetece estar mais ligados ás artes : a pintar, a escrever, a dançar, a costurar, como se fosse uma terapia. Uma introdução breve sobre o Natal : esta celebração como todas, tem uma origem pagã. Ao que hoje conhecemos como natal era uma celebração respectiva ao Solstício de Inverno, ou seja, quando os dias passam a ser mais longos e as noites mais curtas, depois da noite mais longa do ano. Era celebrado o nascimento da luz, que nos permitia sair deste estado de hibernação, assim como a terra, que a partir de agora estará pronta para o seu processo de germinação. Era conhecida como a festa das luzes, a festa de adoração ao Sol. Felizmente, ainda em algumas zonas do País, desde as Beiras a Trás os Montes, ainda persistem estes rituais. Foi a Igreja Católica, que por seu próprio interesse associou este nascimento ao de Jesus, e à Coca Cola que nos trouxeram o Pai Natal vermelho, quando este era nada mais que São Nicolau, um senhor que oferecia prendas ás crianças nesta altura do ano.

Ora, voltando á comida, os alimentos têm o poder de nos ajudar nesta fase do ano. O elemento associado ao Inverno é a água, que está directamente ligado ás emoções, ou seja a nossa energia está mais Yin. Podemos equilibrar esta energia consumindo mais alimentos de raiz como o nabo, os rábanos, a bardana, as cenouras, pastinacas e principalmente raízes, exactamente para nos darem mais “ chão, mais terra” . Temos como exemplo o kuzu, a raiz de lótus, o café de chicória. Ainda é benéfico nesta altura do ano usar especiarias como a cúrcuma, o genngibre , o caril e as pimentas. Outras especiarias indicadas para esta altura são o estragão – ( fica muito bem salteado com cogumelos ) – especiaria esta que suporta a energia basilar e dos rins, pois temos tendencia para retenção de líquidos nesta altura do ano. É por isso ligeiramente diurético, tem uma qualidade morna e pode ser tomado em infusão. A assafétida é outra a usar, e equilibra o sistema nervoso e desbloqueia questões emocionais. Outra especiaria , esta de medicina ayurvédica, mas muito eficaz é o Brahmi ou Bacopa, pois tem função enraizadora trazendo terra á água, e ajuda a controlar a emotividade excessiva no inverno, principalmente quando chove muito e estamos em modo de recolha e temos dificuldade em sair desse registo.

Os cogumelos continuam a reinar por excelência nesta estação. No mercado temos várias opções e todas elas são benéficas, sendo mais medicinais os shitake, os maitake, os reishi e os chaga. Os reishi são mais fáceis de encontrar em pó e podem ser adicionados a sopas, tendo o cuidado de não ferver pois perderão as suas propriedades ( tal como o miso, que continua a fazer parte da lista de compras para o inverno ) . Ele é um cogumelo lenhoso ( ou seja, menos aquoso ) equilibrando assim a energia água no inverno. Combinado com cúrcuma e Brahmi tem um alto poder anti oxidante e reequilibrante do sistema nervoso. Os cogumelos selvagens são óptimos, mas apenas aconselho a sua colheita com um conhecimento a 100% destes alimentos, pois sabemos que podem ser fatais. A Shisandra chinensis é uma planta da medicina chinesa que tem função hepática, antioxidante, aconselhável a tomar nesta época festiva pré e pós natalícia onde se acumula muito stress familiar, e desbloqueia o chi – energia – do fígado, logo, existe menos irritação emocional.

Os cereais mais adequados são a aveia, o arroz, o kamut, o sorgo, o milho miudo , o toritical, a quinoa e em destaque para um “ pseudo – cereal”, que na realidade é da família das Poligonáceas – como o ruibarbo , é o trigo sarraceno o “cereal” de inverno por excelência. Tem natureza Yang, nutrindo a energia ascendente e dá energia, tendo atenção em não exagerar. Este não precisa de ser demolhado ( a não ser que seja ingerido cru em forma de papa ) e demora cerca de 15 minutos a cozer. Tem um sabor ligeiramente acre e gosto muito de salteá-lo. Os cereais vão bem com as cenouras, alho francês, couves e abóboras. Para quem não tem intolerância ao iodo, ou problemas relacionados com a tiróide pode adicionar as algas na sua rotina, pois nesta altura do ano existe a tendência para a desmineralização. Convém encontrar marcas biologicamente certificadas ou até portuguesas ( já existem algumas – a Spirulina de Monchique e a kombu e wakamé de Aveiro ) , devido á questão das radiações de Fukushima, presentes nos produtos asiáticos.

No Inverno é benéfico cozinharmos salteados longos, no forno e é aqui que são aconselhados os fritos, como as tempuras em azeite virgem ou outro óleo de pressão a frio, como o óleo de côco, e evitarmos com frequência pratos demasiado aquosos.

É agora que comemos as acelgas, o aipo de talo e cabeça, abóbora, alho francês, batata nova, beterraba, bróculos, couve flor, cenoura, chicória, todo o tipo de couves, funcho, grelos,nabo, rábano , rabanetes, rúcula e salsa. De fruta temos o kiwi que apesar de não ser autóctone, é um fruto que aquece pois esteve exposto ao sol o verão todo ( tal como as abóboras ) , , laranja, limão, maçã, pêra, romã e um pouco de diospiro.

Qualquer tipo de feijão é bastante benéfico – pois pela sua forma nutrem a energia dos rins. Como temos tendência para a retenção de líquidos nesta altura, o caldo de feijão azuki ( cozer uma dose de feijão para 4 de água com alga kombu ou gengibre, coar e beber esse caldo ainda quente ) é muito aconselhado. As lentilhas são das legumimosas mais aconselhadas para o Inverno.

Nos chás temos tendência a consumir muito gengibre pela sua qualidade quente, mas é extremamente Yang, por isso à que equilibrá-lo com uma energia mais Yin. ( e isto principalmente para pessoas com uma condição muito Yang ) . O mesmo se passa com o alecrim, daí evitar esta ligação alecrim- gengibre. Podemos combinar um destes com a alteia, alcaçuz ou raiz de lótus. ( esta é recomendada para problemas pulmonares, catarro e regula o sono ) . O hibisco ou rosa canina contém altos niveis de vitamina C que precisamos para o Inverno. Para tratar pneumonias combinar estes dois últimos com raiz de lótus, alecrim ou bardana.

Espero que com estas dicas breves, consigam ajudar-vos a enfrentar o Inverno de uma postura mais amorosa, mais fluida, mais saudável, mais conectada, abraçando o convite que esta linda estação nos traz. Convido-vos a que admirem esta benção da Natureza, através de caminhadas na floresta ou na serra, para nos deleitarmos com o cheiro a terra molhada, a observar ( apenas para quem não conhece! ) os cogumelos que nascem, a tocarmos o musgo das árvores, a andarmos descalços na terra, a cheirarmos as bolinhas de eucalipto e olharmos para o orvalho da manhã.

Papas Cruas de Trigo Sarraceno ( pequeno almoço )

1 copo de trigo sarraceno demolhado
1 banana ou kiwi maduro ( esta tem natureza mais fria por isso equilibra e disfarça um pouco o gosto ligeiramente acre do trigo )
!/4 copo amêndoa moída
geleia de arroz ou mel
canela a gosto

Descartar a agua do trigo. Triturar e só depois juntar a banana ou kiwi. Verter para uma taça e juntar os resto dos ingredientes.

Creme de Couve Flor com Batata Nova.

Cozer a couve flor com noz moscada. Após uns minutos juntar a batata. A parte refogar cebola branca e alho em azeite com cominhos. Juntar tudo e triturar. Polvilhar com mais noz moscada ou cominhos. Esta sopa aquece muito no Inverno.

Creme de Cogumelos

Cozer bróculos por 5 minutos. Á parte refogar alho francês com cebola branca em azeite. Juntar tudo com pedaços de abacate. Triturar. Se necessário juntar mais água ( se possivel a dos broculos ) . Levar ao lume baixinho e juntar pedacinhos de cogumelos shitake, maitake e reishi em pó, e desligar. Não deixar ferver. Podemos regar com um pouquinho de natas de aveia.

Infusão para ressacas de álcool ou excesso de toxinas animais

Diluir um pouco de kuzu em água fria. Aquecer numa medida de uma chávena , mexendo sempre em lume baixo até que transpareça. Juntar-lhe um pouco de infusão de bagas de zimbro e beber quente.

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